9.12.11

Falta de opção ou outras opções.

"(...)Mas ninguém é obrigado a viver uma só vida. Não que isso tenha algum mal ou seja vergonhoso. Tivera eu a sorte de encontrar uma vida que me servisse como um fato italiano de bom corte. Ficaria logo com ela. No limite, se o dia-a-dia provocasse manchas visíveis ou rasgões incómodos, mandava-a para a tinturaria ou para o alfaiate. Mais vale uma boa vida remendada do que uma vida nova desengraçada e sem conserto.

Quem migra muda de vida. Migrar é uma das experiências mais intensas que o ser humano pode viver.

Há quase 21 anos (30 de Novembro de 1990), eu era um João (só que em vez de na Portela, no Galeão), como esse que, para fazer-se de forte, segura as lágrimas frente aos seus entes queridos. Eu era um João fugindo de um lugar sem horizontes, cansado de bater em portas fechadas, farto de apanhar das estatísticas, sedento de qualquer coisa que pudesse parecer com uma oportunidade. Salvou-me a realidade de haver um país do outro lado do oceano que, ouvira dizer, mantinha laços culturais com o meu e onde as pessoas falavam a mesma língua.

João, mesmo sem te conhecer (e permita-me o tratamento por tu) emociona-me a tua coragem e desejo-te toda a sorte do mundo. Que o meu outro país seja também a tua casa (e agradeço-te por ter permitido que o teu se tornasse a minha). Não tenhas demasiadas ilusões mas nunca pares de sonhar. Celebra os dias bons mas tem paciência com os maus. Se estás prestes a renascer, lembra-te que não existe parto sem dor.

João, mesmo que agora doa o facto de teres que ir embora não por opção mas por falta de opções, cedo ou tarde essa mágoa com o teu país (arrisco dizer, nosso) passará. Sempre passa. Porque uma pessoa até pode ser tirada do seu povo, mas esse povo nunca sairá de dentro da pessoa.

João, entra no teu voo, fecha os olhos e, se o for o caso, abra o choro. A TAP também serve para isso, para quem parte é último colo de mãe. Depois, quando estiveres mais tranquilo, olha pela janela e verás apenas o infinito. Que é o que te espera.

E de uma coisa tem a certeza, rapaz: quem fica também se exila (pois quem parte leva um bocado de nós). Podemos ser Francisco, Hugo, Fabiano, Paola, Eduardo, Filipe, Ana, Margarida, mas no fundo, no fundo, somos todos Joões."


Edson Athayde
Somos todos Joões, daqui

E porque desde pequenina que vivo exilada, rodeada de gente que não teve opção. E porque particularmente uma dessas pessoas, mesmo ao fim de 13 anos me continua a fazer tanta falta. Porque ainda hoje me lembro do dia em que a falta de opções o levou para "longe" de mim. Porque quando foi, e como o autor diz, levou uma grande parte de mim, deixo este texto a todos aqueles que têm saudades dos "Joões" que por aí andam. Vejo-te para o ano sem falta? :D

1 comentário:

Carla disse...

E somos mesmo todos Joões :/