5.5.12

Sempre que vejo uma velhinha com malas lembro-me da minha Avó A.
Eu tive a sorte de conhecer as minhas duas avós, e tive mais sorte ainda porque uma era do campo e a outra da cidade. Uma fazia-me cócegas, mostrava-me a ausência de dentes, usava sempre um alfinete ao peito onde prendia o fio da renda que fazia, usava óculos por vezes na ponta do nariz, tinha cabelo branco com um tótó atrás e usava combinação por baixo da roupa. A outra, felizmente ainda presente, é o meu porto-de abrigo, o meu mimo, usou saltos altos, cabelo sempre arranjado, perfume forte, unhas pintadas. Uma tinha buço, a outra não. Eu saí à primeira (ahahahah), mas a segunda apresentou-me desde cedo a cera depilatória :P
A minha avó A., a do campo, vinha regularmente até cá à cidade e eu lembro-me de a ir buscar ao autocarro, de ela vir de escuro e cheia de sacos. Os da roupa, o das batatas, do azeite, dos figos, da terra dela que é minha também. E hoje, sempre que olho para um velhinha carregada lembro-me dela com saudade, muita. Daquela saudade que me enche os olhos neste momento. E penso no que ela pensaría em cada viagem, penso se também ela estaría eufórica para sair do autocarro. Se a avó A. não tivesse partido cedo demais, hoje seria eu que a iría visitar e buscar muito mais vezes. Já teria conhecido o meu H. e iria gostar tanto dele como sempre gostou do meu cunhado, e ao contrário de outros tempos agora sería eu a ir para lá com o meu namorado e com os filhos da minha irmão para irem ver a avó. Tenho pena, muita mesmo, por a vida não me ter permitido viver esta idade adulta com a minha avó A.
Sempre que vejo uma velhinha com malas eu lembro-me dela. Recordo que quando vinha eu nunca queria dormir com ela porque ela não queria a TV ligada, e depois chorava por ela ir embora. Lembro-me de como era bom ir buscá-la para bem mais perto de mim. Lembro-me do amor que ela tinha por nós. Lembro-me de como me fez tão, mas tão feliz. Lembro-me que acordar com ela foi e será sempre o acordar mais bem-disposto que alguma vez já tive. Lembro-me o que ela representou e representa para mim. E por isto tudo e muito mais, doi-me o coração cada vez que vejo uma velhinha com malas...porque essa não é mais a minha e agradeço aquela que ainda cá tenho, que já não vejo de saltos altos, é certo, mas que me ama como nunca ninguém o saberá fazer e me adormece da forma mais doce do mundo.

2 comentários:

L. disse...

Também revejo as minhas avós nas senhoras idosas que por vezes por mim passam. Sinto uma saudade imensa também, pois partiram cedo demais. Mas a vida é mesmo assim, e é imensamente bom recordarmos as pessoas de quem gostamos e já cá não estão.

S* disse...

Pessoas cuja importância é inigualável. :)